A importância da fibra na alimentação de equinos.

Entenda mais sobre a alimentação dos equinos e como o uso adequado de volumosos e concentrados pode contribuir para o aproveitamento dos nutrientes e o bom desempenho dos animais.

Autores: Ágata Shakti Gomes Pinheiro e João Henrique da Silva Sant´Ana.

Fontes: Giovanna da Silva Reis e  João Henrique da Silva Sant´Ana

Os equinos são animais herbívoros não ruminantes que apresentam características anatômicas e fisiológicas adaptadas ao consumo e aproveitamento de alimentos  volumosos. Sua alimentação pode ser composta por alimentos volumosos e concentrados.  

Os volumosos são alimentos que apresentam teor de fibra bruta superior a 18% na matéria  seca, como as pastagens e o feno. Na alimentação natural dos equinos, as forragens  constituem importantes fontes de nutrientes, incluindo fibra. 

O comportamento alimentar dos equinos 

Os cavalos apresentam comportamento alimentar caracterizado pelo consumo frequente de pequenas quantidades de alimento ao longo do dia. Por isso, a oferta adequada de forragem é importante para atender às necessidades nutricionais, e também para permitir que o animal expresse comportamentos naturais, como a busca, apreensão e mastigação do alimento.  

A mastigação de alimentos fibrosos é prolongada e estimula a produção de saliva. Nos  equinos, a saliva possui importante função na manutenção do ambiente gastrointestinal saudável, contribuindo para o tamponamento da acidez no estômago. A produção de saliva também previne problemas gástricos, especialmente em animais submetidos a treinamento e exercício.  

Afinal, o que é fibra?

Para entender o que é a fibra, primeiro precisamos conhecer um pouco da composição das  células vegetais.  

A célula vegetal pode ser dividida, de maneira geral, em conteúdo celular e parede celular.  O conteúdo celular é constituído por carboidratos solúveis, proteínas, lipídios, ácidos  nucleicos, água, sais minerais e hormônios vegetais. Já a fibra, corresponde principalmente aos componentes estruturais da parede celular  vegetal. Entre seus principais constituintes estão a celulose, a hemicelulose, as pectinas e a  lignina.  

A celulose e a hemicelulose são carboidratos estruturais que podem ser utilizados pelos  microrganismos presentes no intestino grosso dos equinos. As pectinas também fazem  parte da parede celular e apresentam elevada fermentabilidade. Já a lignina é um  carboidrato indigestível.

Parede celular vegetal de boa qualidade × Parede celular vegetal de baixa qualidade

A qualidade da forragem se modifica conforme a planta se desenvolve e amadurece. Em estádios mais jovens, a parede celular representa uma menor fração da matéria vegetal. Com o avanço da maturidade, ocorre aumento da proporção de parede celular e do acúmulo de componentes fibrosos, especialmente celulose e lignina. Esse processo reduz a digestibilidade e a disponibilidade dos nutrientes, comprometendo o aproveitamento da forragem pelos equinos. 

O que acontece quando o cavalo recebe pouca fibra?

Quando o fornecimento de forragem é restrito, o animal pode passar longos períodos sem realizar a atividade de alimentação e mastigação. Essa alteração pode favorecer o aparecimento de comportamentos anormais ou estereotipias. 

Entre eles estão a aerofagia, o ato de roer madeira e a “dança do urso” (weaving). O consumo de madeira, por exemplo, pode estar relacionado à tentativa do animal de compensar a redução do tempo destinado à mastigação.

É importante destacar que esses comportamentos não possuem necessariamente uma única causa. Manejo, ambiente, alimentação e condições de alojamento podem influenciar sua ocorrência. 

Mas como o cavalo aproveita a fibra? 

Diferentemente dos ruminantes, os equinos não possuem rúmen. Além disso, grande parte dos componentes fibrosos da parede celular vegetal não pode ser digerida pelas enzimas produzidas pelo próprio cavalo. Por isso, o aproveitamento da fibra depende da ação dos microrganismos presentes no intestino grosso, principalmente no ceco e no cólon.

Durante a fermentação microbiana da fibra, são produzidos ácidos graxos de cadeia curta, principalmente acetato, propionato e butirato. Esses compostos podem ser absorvidos e utilizados pelo organismo como fonte de energia. Dessa forma, a fibra não atua apenas na manutenção do funcionamento gastrointestinal, mas também representa uma importante fonte de energia para os equinos.

Entretanto, nos equinos, o tempo disponível para a fermentação da fibra no intestino grosso é relativamente menor quando comparado aos ruminantes. Por isso, a microbiota do intestino grosso está mais adaptada ao aproveitamento de fibras de melhor qualidade, especialmente aquelas com menor grau de lignificação. A lignina é um componente da parede celular vegetal de difícil degradação e sua presença reduz a disponibilidade dos demais componentes fibrosos para a fermentação microbiana. Assim, quanto maior a qualidade e menor a lignificação da fibra, maior tende a ser seu aproveitamento pelos equinos.

Fibra, mastigação e saúde gastrointestinal 

O consumo de forragem estimula a mastigação. Em equinos, o consumo de alimentos volumosos pode exigir cerca de 3.000 a 3.500 movimentos mastigatórios por quilograma de matéria seca, contribuindo para o desgaste adequado dos dentes, a produção de saliva e a manutenção da atividade gastrointestinal. 

Além disso, a fibra auxilia na manutenção do funcionamento normal do trato gastrointestinal e fornece substrato para a microbiota responsável pela fermentação no intestino grosso.

A fibra também ajuda no fornecimento de água

A fibra possui características físicas que influenciam a quantidade de água presente no conteúdo gastrointestinal. Entre essas características, destaca-se sua capacidade de retenção de água, que constitui uma importante função nutricional. O intestino grosso dos equinos atua como um importante reservatório de água e eletrólitos, podendo conter quantidade significativa de líquidos. Parte da água retida pela fração fibrosa é carreada até a câmara fermentativa, associada à fibra de qualidade, contribuindo para a manutenção de um reservatório hídrico no intestino grosso.

Dessa forma, diferentes fontes de fibra apresentam diferentes capacidades de retenção de água, influenciando a hidratação e a consistência do conteúdo digestivo. Esse reservatório hídrico pode ser importante para o equilíbrio hídrico do organismo e para os processos de termorregulação do cavalo. Fontes como polpa de beterraba, polpa cítrica, casca de soja e alfafa apresentam características distintas quanto à capacidade de retenção de água e, consequentemente, podem exercer diferentes efeitos sobre a dinâmica do conteúdo gastrointestinal.

E quanto de forragem o cavalo precisa?

A quantidade de forragem deve ser definida considerando o peso corporal, a qualidade do alimento, o nível de atividade e as necessidades nutricionais do animal. Como referência, pode-se considerar um consumo mínimo de aproximadamente 1,5% do peso corporal por dia em matéria seca proveniente da forragem. 

Por exemplo, para um cavalo de 539 kg, esse valor corresponde a aproximadamente 8 kg de matéria seca de forragem por dia. Considerando um feno com 88% de matéria seca, isso representa cerca de 9 kg de feno por dia. Já no caso de um capim verde de capineira com aproximadamente 25% de matéria seca, seriam necessários cerca de 32 kg de capim fresco para fornecer a mesma quantidade de 8 kg de matéria seca.

E os cavalos atletas?

Cavalos atletas podem passar uma parte significativa do dia estabulados e, por isso, o manejo alimentar precisa considerar não apenas o fornecimento de nutrientes, mas também a possibilidade de manter o comportamento alimentar natural. 

Uma estratégia utilizada é disponibilizar o feno em bolsas ou redes, que podem funcionar como forma de enriquecimento ambiental e aumentar o tempo destinado ao consumo do volumoso. 

Dessa forma, mesmo quando o animal precisa permanecer estabulado, é possível buscar estratégias que favoreçam a mastigação, reduzam períodos prolongados de jejum e contribuam para seu bem-estar. 

Na alimentação dos equinos, oferecer fibra não significa apenas fornecer um volumoso. A qualidade da forragem, a quantidade oferecida e a forma de disponibilização também fazem parte de um manejo alimentar adequado.

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